Jocelino Freitas

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Textos

Dueto com Drummond

ODISSÉIA (Drummond)

O amor foi à função. Bebeu, cantou e bailou: estava muito excitado, tiveram de levá-lo para casa e prendê-lo no quarto para que repousasse. No dia seguinte o amor bailou e cantou sem beber, e era sempre primavera nos seus modos e falas. O amor viajou, voltou, fazia piruetas, trocadilhos, esculturas, criava línguas e ensinava-as de graça. Todos o queriam para companheiro, paravam de guerrear para abraçá-lo, jogavam-lhe moedas, que ele não apanhava, gerânios que oferecia às crianças e às mulheres. O amor não adoecia nem ficava mais velho, resplandecia sempre, havia quem o invejasse, quem inventasse calúnias a seu respeito, o amor nem ligava. Cercaram sua casa de madrugada, meteram-lhe a cabeça num saco preto, conduziram-no a um morro que dava para o abismo, interrogaram-lhe, bateram-lhe, ameaçaram jogá-lo no precipício, jogaram. O amor caiu lá embaixo, aos pedaços, mas se recompôs e foi preso outra vez, aplicaram-lhe choques elétricos, arrancaram-lhe as unhas, os dedos, o amor sorria e quando não podia mais sorrir, gritava numa de suas línguas novas, que não era entendida. E desfalecendo voltava à consciência; e torturado outra vez, era como se não fosse com ele. Quebraram o amor em mil partículas e ninguém pode ver as partículas. Foi sepultado formalmente no fim do mundo, que é pra lá da memória. Ninguém localizou, mas todos falavam nele, o amor virou um sonho, uma constelação, uma rima e todos falavam nele. E ressuscitou no terceiro dia.


COMPLEMENTO
(Jocelino Freitas)

Me disseram que depois da ressurreição o amor anda meio amuado, cansado. Alguns amigos o viram embriagado, perdido, sentado num banco de praça. Quem passava o cumprimentava, mas ele se mantinha calado, afastado, não contestava. Dizem que agora tem dado de falar do passado, como se tivesse esgotado tudo o que representava. Acho que por ter sido socado, espancado, deve ter afetado o entendimento, que mesmo depois de ter despertado e ressuscitado, o amor, que sofreu um bocado, deve estar deslocado. Será que um dia esse coitado voltará a ser falado, cantado, gritado aos quatro ventos? Que alento... agora temos um amor que é desbancado e comparado com sua prima paixão, verdadeira decepção. Por que maltratamos tanto o bom e velho amor?

Jocelino Freitas

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Publicado em 02/11/2009 às 23h10


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